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Pauta
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TRAGAM SEUS DÓLARES PARA PASSEAR NO BRASIL
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Investidor estrangeiro que aplica no Brasil tem retorno de 26% - em dólar - no período de seis meses, muito acima da taxa obtida entre os demais países do Bric
Embora os juros de referência estejam em queda no Brasil, há um "mantra" de que as taxas são ainda elevadas para o país. Como se pode confirmar se esse discurso é real ou parcial?
Há um artifício financista que responde a essa questão. Basta averiguar como se comportam as aplicações de curto prazo feitas por investidores estrangeiros, as chamadas contas de capitais, tipicamente especulativas. Numa projeção elaborada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio), os dados ficam claros.
Um investidor que aplicou, por exemplo, US$ 1 milhão em títulos de renda fixa no dia 2 de janeiro de 2009 saiu com US$ 1.258.558 no final de junho, ou quase 26% de retorno em meio ano. Trata-se de uma taxa anual de 58% - em dólares.
Compare esses valores aos ganhos obtidos nos outros países do chamado BRIC. Se um investidor injetasse US$ 1 milhão na Rússia no dia 02 de janeiro, só obteria 0, 1% de retorno no mesmo período e sairia com US$ 1.001.081,22 no dia 30 de junho. Na China, essa mesma equação resultaria em 2,5% de rendimento. Na Índia, 4,2%.
Esse retorno em um semestre de 26% no Brasil é fruto da combinação de juros altos e variação cambial. E este último, é um fator que se retroalimenta por conta do primeiro. Com juros atraentes, há mais entrada de dólares, o que valoriza o real.
Assim, é só fazer a conta:
Dia 2 de janeiro de 2009
Investidor estrangeiro entrou e comprou o real a R$ 2,33 - aplicou então R$ 2.330.000,00 em títulos de curto prazo, como os de renda fixa. Com o rendimento sobre R$ 2.330.000,00, ele obteve R$ 2.454.119 reais. Somada o rendimento da aplicação + variação cambial chega-se aos 25,9%, que o investidor estrangeiro tem em rendimento sobre o dólar. Um ganho que ele jamais teria no país dele.
Dia 30 de junho de 2009
Vendeu seus reais para comprar dólares de novo. E então, com o real valorizado - R$ 1,95 em relação ao dólar - comprou US$ 1.258.558,46.
Se fosse hoje, dia 31 de agosto...
... e o investidor tivesse mantido seu dinheiro aplicado em renda fixa, ele tiraria US$ 1.324.000, pois o dólar hje está valendo cerca de R$ 1,87 (6,24% de juro de rendimento mais variação cambial = 32,4% de ganho total)
Os investidores ainda olham para o Brasil como uma das últimas oportunidades de ganhar dinheiro fácil. Aplicam sem risco, e sem nenhuma taxação nos ingressos, ao contrário do que acontece em outros países.
Outros tempos
"Durante outras crises, como a do México, Ásia ou Rússia, nossas reservas estavam baixas, tínhamos forte déficit em transações correntes, o câmbio era fixo e dependíamos do capital de curto prazo", explica o economista da Fecomercio, Fabio Pina. "Hoje não há por que dar tantas garantias ao capital especulativo. Estamos em outro extremo, com mais de US$ 200 bilhões em reservas, superávit acumulado, e o câmbio é flutuante", compara.
Para se ter uma ideia da distorção criada pela somatória juros altos + desvalorização cambial, se durante a crise da Rússia, em 1998, um investidor estrangeiro fizesse a mesma operação - juros de 45% ao ano e câmbio fixo - seu dinheiro seria remunerado apenas a partir dos juros. Assim, ele teria um retorno médio por volta de 20% sobre o seu US$ 1 milhão.
E se os juros estivessem mais baixos?
Se os juros hoje fossem a metade dos atuais - em torno de 4,5% - o rendimento seria de 2,6% em seis meses sobre o título de renda fixa. E os ganhos sobre o capital especulativo não ficariam tão interessantes, o que deixaria de trazer tantos dólares, o que desvalorizaria o real, e traria outras consequências, como a melhora do retorno com as exportações.
Qual o risco iminente?
O investidor ganhou entre o dia 2 de janeiro e 30 de junho US$ 258.558 - líquidos. Dinheiro este pago a partir dos títulos do governo. Se não forem utilizados instrumentos para encontrar o ponto de equilíbrio destas operações - como a IOF na entrada, por exemplo - haverá um momento em que será preciso recorrer a outras fontes de recursos para remunerar o dinheiro do investidor estrangeiro, como por exemplo, aumento da carga tributária, num esforço cada vez maior para pagar esses juros, observa Altamiro Carvalho, economista da Fecomercio. "Quem paga essa conta é a sociedade", explica.
Porém, essa correlação não é percebida. A meta, no caso, é encontrar o equilíbrio da relação câmbio e juros para operações financeiras saudáveis que se remuneram pela valorização do real a partir de capital produtivo - fruto de investimento direto de longo prazo.
Sobre a Fecomercio
A Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) é a principal entidade sindical paulista dos setores de comércio e serviços. Representa 151 sindicatos patronais, que abrangem cerca de 600 mil empresas, o que corresponde a 10% do PIB brasileiro e gera em torno de cinco milhões de empregos.
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