|
||||||||
|
Pesquisa IMPRENSA/Aberje/Maxpress de Avaliação das Assessorias de Imprensa, feita em dezembro de 2005 pela Franceschini, submete a relação entre redações, poder público e econômico a um raio-x que revela disparidade entre regiões do país no trato com a liberdade de expressão, a existência de pressão política e a dificuldade no acesso a informações de alguns setores produtivos É como se o corpo todo estivesse bem – aparentemente saudável, disposto, sem sintomas preocupantes – mas alguns órgãos fossem diagnosticados com pequenos problemas, aqui e ali. Os números da pesquisa IMPRENSA/ Aberje/Maxpress apontam, de maneira geral, uma satisfação dos jornalistas em relação à independência que têm no seu trabalho cotidiano, mas revela dificuldades em maior grau em algumas regiões do país e na apuração de informação de alguns setores da economia. O principal objetivo da pesquisa é traçar um diagnóstico de relacionamento entre a imprensa e os agentes de mediação das esferas pública e privada, passando pelo nível de independência e liberdade de expressão, pressão dos governos e transparência de setores econômicos (na edição de março da revista IMPRENSA, publicaremos os resultados sobre eficiência das ações das assessorias de imprensa e credibilidade dos assessores de comunicação). Entre os 405 jornalistas entrevistados, 43% já trabalharam como assessores de imprensa, o que fornece elementos, de alguma forma, consistentes na avaliação dessas relações, já que quase metade deles conhece, para utilizar um jargão jornalístico, “os dois lados do balcão”. A primeira questão abordada na pesquisa refere-se ao nível de independência dos jornalistas. Foi pedido aos entrevistados que concedessem uma nota de 1 a 10, sendo que 1 indica que ele pensa não haver nenhuma independência e 10, total independência. A média nacional foi 6,71. O gênero, segundo a pesquisa, não interfere na percepção da independência: a nota final para os sexos masculino e feminino não diferem substancialmente, sendo 6,78 e 6,60, respectivamente. Ainda que não haja muita oscilação entre os índices no recorte por faixa etária, vale notar que os indicadores de independência aumentam à medida que aumenta a idade do entrevistado, ou seja, quanto mais jovem, menos independência o jornalista afirma ter: entre 15 e 30 anos, a nota foi 6,59; entre 31 e 40, 6,68; entre 41 e 50, 6,72 e os jornalistas com mais de 50 anos atribuíram nota 7,0 ao grau de independência. Em relação à mesma questão, jornalistas que ocupam cargo de chefia sentem-se um pouco mais independentes que os repórteres (6,91 para a direção e 6,50 para a reportagem). |
||||||||
![]() |
||||||||
|
Acompanhe, nas próximas páginas, detalhes da pesquisa. Ao norte, menos liberdade Quando perguntados sobre independência editorial e pressão dos órgãos do governo sobre sua atividade, jornalistas da região Norte revelam indicadores menos positivos que de outras regiões Mário Quevedo Neto, Pedro Antônio Ribeiro, José Carlos Mesquita. O primeiro foi preso. O segundo, ameaçado. O terceiro, morto. Além da violência que se abateu sobre esses três jornalistas, eles têm em comum o fato de trabalharem ou terem trabalhado em veículos de comunicação da região Norte do país. Em alguns casos, a repressão tem fins trágicos, como nestes, mas o que aponta a pesquisa IMPRENSA/Aberje/Maxpress é que os profissionais de imprensa dos estados da região Norte são os que mais se queixam da falta de liberdade de expressão e de uma ingerência maior dos órgãos públicos sobre seu trabalho cotidiano. Segundo a pesquisa, os jornalistas da região Norte foram os que atribuíram menor nota no quesito independência: 5,65, contra uma média que varia de 6,71 a 6,87 nas outras regiões. No interior dos estados, essa avaliação ganha contornos ainda mais dramáticos: o indicador cai a 4,50, ou seja, menos da metade de uma escala que vai de 1 a 10. A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Pará, Carmen Lúcia Souza da Silva, afirma que muitas vezes os profissionais sequer procuram as entidades de representação para apresentar queixas sobre a pressão que eventualmente sofrem nas redações por parte dos órgãos públicos, mas reconhece que a interferência é grande, “principalmente nas esferas estadual e municipal porque são grandes anunciantes e acabam tendo a entrada facilitada pelos donos dos veículos de comunicação”, avalia. A opinião de Carmen tem ressonância em seu colega, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Amapá. Segundo Volney Oliveira, muitos dos veículos de comunicação ou se comportam como “diários oficiais”, pautados por uma agenda positiva ao governo, ou sofrem as mais diversas pressões, em especial a financeira, visto que a dependência da verba pública é comum nestes estados em que os setores privados não têm grande concentração de verba e não são anunciantes. Na classificação por regiões, a que melhor avalia seu grau de independência é o Distrito Federal, a capital do poder, com 6,87, seguida do Sul (6,86), Sudeste (6,77) e Nordeste (6,73). No Brasil, 15% dos jornalistas afirmam já terem sentido na pele a pressão dos órgãos do governo sobre seu trabalho, sofrendo ações corretivas do poder público em sua atividade. Na Argentina, o governo de Kirchner, popular, mas mal relacionado com a imprensa, provocou um índice três vezes maior, segundo pesquisa semelhante. Aqui, essa interferência direta é mais sentida nas regiões Centro-Oeste (43%) e, novamente, Norte (41%). Os jornalistas do estado de São Paulo são os que afirmam sofrerem menos interferência direta do governo, com 8%. Os profissionais de televisão e jornal são os mais vulneráveis, segundo a pesquisa, à interferência e ações corretivas do governo: 23% para os profissionais de TV e 19% para os jornais impressos. A relação dos jornais e jornalistas com o poder local nos estados do Nordeste já gerou histórias que entraram para o folclore dos coleguinhas. Como aquela em que um candidato a governador do estado da Bahia, em 2002, obrigou todos os profissionais de um jornal da capital a colar adesivos de campanha em seus carros. A negativa lhes custava o emprego. Segundo o jornalista Luis Sergio Santos, editor da revista Fale!, no Ceará, e assessor de imprensa da prefeitura de Beberibe, “as ameaças mais comuns ocorrem nas regiões mais pobres. Não de forma explícita, mas por meio de sanções econômicas. Eu sei que isso é mais comum no Nordeste do que em outras regiões do país, sobretudo com a mídia regional, que é mais sensível ao orçamento do governo e das estatais. Então, a inserção de publicidade vira moeda de troca para fazer valer interesses”, explica. Ainda que a restrição à liberdade seja mais perceptível em regiões, pontualmente, a avaliação geral não é tão positiva quanto a abertura democrática pareceu dar condições, com o fim da ditadura. Entre todos os jornalistas pesquisados, apenas 28% afirmam ter liberdade total para publicar as notícias que julgam ser de interesse público, ou seja, a cada dez jornalistas, menos de três são, realmente, livres. Do total, 60% afirmam ter liberdade quase total e 11%, pouca liberdade. Os que afirmaram não ter liberdade alguma somam 1% do universo pesquisado. As mulheres, segundo a pesquisa, afirmam ter menos liberdade que os homens. Somadas as respostas “não tem nenhuma liberdade” e “tem pouca liberdade”, os jornalistas do sexo masculino ficam com 10% enquanto as mulheres, 14%; entre os homens, 33% afirmam ter total liberdade, contra 20% das mulheres. Segundo a professora de Ética e Legislação da Comunicação da Uni- FIAM/FAAM, Adriana Paone, não há dispositivos legais claros que impeçam a ingerência do Estado sobre o trabalho dos jornalistas. Para ela, a Lei valoriza as relações com a esfera privada e o artigo 28 do projeto da nova Lei de Imprensa sugere apenas normatização nos casos em que Estado ou instituições se configuram como clientes, anunciantes. “Eticamente, o jornalismo está encurralado. Se o jornalista só tem uma opção, que é falar a verdade, certamente ele pagará um preço por isso”, lamenta. |
||||||||
![]() | ||||||||
![]() | ||||||||
|
||||||||